sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Leitura na Europa

Nos dias 21, 22 e 23 de Abril de 2004, participei na Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Leitura na Europa , que decorreu na cidade de Mainz, a 30 quilómetros de Frankfurt. Durante três dias, 20 países da Europa — Alemanha, Espanha, França, Portugal, Estónia, Eslováquia, República Checa, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Letónia, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Itália, Suíça, Polónia, Áustria e Hungria — debateram a promoção da leitura junto de crianças e jovens, apresentando experiências concretas já realizadas e analisando em conjunto as principais questões que se levantam à volta do tema. Além dos convidados, cerca de 300 pessoas, entre as quais educadores, professores dos vários graus de ensino e bibliotecários, assistiram à conferência e intervieram sempre que quiseram, questionando os conferencistas ou apresentando as suas próprias experiências e preocupações nesta área. O problema comum a todos tinha como base os resultados do relatório PISA apresentado pela OCDE em finais de 2003 e disponibilizado em língua alemã em Fevereiro de 2004 (www.pisa.oecd.org). Os relatórios PISA sobre a aprendizagem escolar e sobre algumas das matérias curriculares, onde se inclui a leitura, são hoje uma preocupação comum a todos os países industrializados. Andamos a ensinar as crianças a ler, promovemos a leitura junto delas, lemos-lhes livros, contamos-lhes histórias, mas estarão os jovens preparados para enfrentar o futuro? Estarão efectivamente prontos para analisar, raciocinar e comunicar as suas ideias? Terão a capacidade de continuar a aprender durante toda a vida? São estas as questões levantadas por aqueles que se dedicam à educação das crianças e dos jovens de hoje. Os relatórios PISA (2000, 2003 e 2006) procuram responder a algumas questões sobre a aquisição de competências nos jovens de 15 anos dos principais países industrializados. As questões levantadas no congresso de Mainz preocupam pais, educadores, professores, bibliotecários, animadores da leitura. Como facultar às crianças e jovens o gosto pela leitura? Quando é que esse gosto deve ser promovido e incentivado, sabendo-se hoje que é através do gosto pela leitura que se adquirem competências que farão dessas crianças e jovens, cidadãos socialmente mais integrados e culturalmente mais ricos? • Em diferentes etapas da vida, crianças, adolescentes e adultos estão abertos a diferentes tipos de promoção da leitura. Como aproveitar essa abertura? Que tipo de medidas serão apropriadas e apresentarão melhores resultados nessas diferentes etapas da vida? • Qual a importância da leitura nos vários graus de ensino? O que devem ler os alunos em cada grau de ensino? Quais as medidas de promoção da leitura preferidas pelos professores e quais são aquelas que sabemos melhor resultarem? • Qual a importância da literatura para crianças e jovens nos vários graus de ensino? Será que os manuais escolares e as obras adoptadas para leitura obrigatória no 3º ciclo e secundário promovem a leitura? Estarão adaptados aos interesses das crianças e jovens? E qual o papel do livro literário, do escritor e do ilustrador? Qual a relação entre os jovens e os seus autores preferidos? • Ou ainda: como fazer com que mais rapazes leiam, já que eles são uma minoria, se comparados com as raparigas? Deverão existir, de facto, manuais de língua materna diferentes para rapazes e raparigas? Um dos caminhos a seguir para que a promoção da leitura seja efectivamente uma realidade, unanimemente aceite no congresso de Mainz, é a articulação entre Ministério da Cultura e Ministério da Educação, ou, mais especificamente, entre bibliotecas públicas e escolas, preferencialmente através das bibliotecas escolares. Tal não significa que escola e biblioteca percam as suas características próprias. É na definição das suas especificidades que a leitura pode encontrar os seus lugares privilegiados. Crianças e adolescentes devem ser envolvidos num programa nacional de leitura, que tem de partir do estado através de campanhas nacionais, mas que necessita de encontrar eco em múltiplas campanhas locais espalhadas pelo país. Para que a articulação entre escola e biblioteca resulte, ela deve ser acompanhada pelas famílias, através da sensibilização para a importância do livro junto dos pais. Não sejamos utópicos, nós portugueses, a ponto de imaginarmos que daqui a dez anos haverá, em todas as nossas casas, pelo menos uma prateleira de livros. Mas podemos ser ambiciosos a ponto de concebermos campanhas de sensibilização junto das famílias, a partir das escolas e das bibliotecas, para o papel da leitura na formação das crianças e jovens. Todos estamos de acordo no papel da escola como promotor da leitura. Todos estamos de acordo na importância do acompanhamento dessa leitura pelas famílias. Todos estamos de acordo que escolas e famílias devem facultar às crianças e jovens o acesso à biblioteca e o incentivo para a sua utilização desde a mais tenra idade. No congresso de Mainz, todos foram unânimes em considerar fundamental o papel da leitura no espaço da sala de aula. Não basta que o professor ensine a ler. Nem sequer basta que ensine a ler bem. Um aluno que leia muito bem pode nunca vir a tornar-se leitor. A competência linguística está lá. A competência leitora pode não estar. No congresso de Mainz, todos foram unânimes em considerar que os programas de língua dos diferentes ciclos, nos diferentes países, não promovem a leitura, não criam dentro dos curricula o espaço da leitura, o momento da leitura, a hora da leitura ou o que quisermos chamar-lhe. A leitura como prazer, a leitura de uma história completa, a leitura em voz alta deve ser oferecida às crianças e aos jovens, de modo a que aquele conto, aquela história de fadas, aquele livro possa ser desfrutado em pleno, sem que em seguida tenha de ser analisado morfologicamente, sintacticamente, interpretado, recontado, resumido, torturado. O momento da leitura tem de ser um prazer, não uma obrigação. Foi esta a expressão mais ouvida no congresso de Mainz: “the joy of reading”. Devemos ainda considerar a biblioteca como local de articulação entre escola e família. A criança vai à escola. O pai já não vai. Mas criança e pai podem ir à biblioteca da sua zona de residência. Ela desempenha hoje um papel fundamental na formação de uma comunidade leitora. Está dito e re-dito que as crianças que crescem num ambiente propício à leitura têm mais possibilidade de se tornarem leitores para toda a vida. As bibliotecas são esse espaço cheio de livros. Mas os livros, por si só, podem não ser suficientes. Não basta uma série de estantes cheias de lombadas à vista e ao dispor dos seus eventuais leitores. Não basta que a criança saiba que os livros estão ali. Ela precisa de encontrar uma porta que lhe permita entrar no seu interior. Desta forma, uma biblioteca que queira formar desde cedo jovens leitores tem de conceber um programa de promoção da leitura consistente, para que crianças, jovens, mas também leitores já constituídos, possam aperceber-se da potencialidade que os livros e a leitura têm no desenvolvimento das suas capacidades imaginativas. Perante um mundo de livros que é uma biblioteca, os leitores devem ser orientados nas suas leituras, para que não se percam naquele mundo que, pelas suas características de diversidade, lhes impõe já algum temor. No site da DGLB, estão agrupados uma série de links para os endereços electrónicos de instituições e organizações que estiveram presentes em Mainz. Nesses endereços, podem ser encontrados projectos de promoção da leitura variados e destinados a diferentes idades. Alguns projectos são promovidos por instituições governamentais, mas muitos outros são realizados por organizações particulares. Um destaque para 3 ou 4 desses projectos: THE GOOD STORY FESTIVAL: trata-se de um Festival que decorre na Dinamarca e que pretende estimular o prazer da leitura em crianças e jovens dos 0 aos 16 anos. O tema do Festival é o livro e o conto oral e desenrola-se em toda a Dinamarca, a nível local e nacional. Durante duas semanas, livreiros, professores, bibliotecários, autores e contadores de histórias lêem histórias e aconselham às crianças e jovens uma série de títulos sobre o tema. O próximo Festival ocorrerá em 2005 e terá como tema “a história fantástica”. READING IS FUN é um projecto da Estónia feito para a Internet e permite que os jovens seleccionem uma série de livros que discutirão depois através da Internet. Reading Nest (O ninho da leitura) é outro projecto destinado aos mais novos. Nos infantários e nas salas de aula são criados “cantinhos da leitura” onde as crianças se sentam a ler, ao mesmo tempo que os professores desenvolvem uma série de actividades paralelas. BOOKTRUST é uma organização inglesa, sediada em Londres, que desenvolve um programa intitulado Bookstart, muito conhecido em Inglaterra e o único do género existente em todo o mundo. Cada criança que nasce recebe um saco de livros para bebés, acompanhado de guias orientadores da leitura, o que permitirá aos pais acompanharem de perto as leituras sugeridas. Il Giralibro é um projecto italiano que envolve cerca de 2500 escolas do 2º e 3º ciclos. Trata-se de oferecer gratuitamente às escolas colecções de livros seleccionados. Até à data, foram já oferecidos 500.000 livros, lidos por dois milhões de alunos. Il Giralibro ganhou, em 2003, o Prémio Andersen para o melhor projecto de promoção da leitura. Presente em Mainz esteve ainda a Fundação Germán Sánchez Ruipérez, de Espanha. O Centro do Livro Infantil e Juvenil de Salamanca, num edifício de 6 andares, é totalmente dirigido à promoção da leitura para crianças entre os nove meses e os 18 anos. Conscientes de que os hábitos de leitura começam a ser adquiridos desde que o bebé adquire a capacidade de segurar num objecto, os responsáveis pela Fundação projectaram um serviço de leitura constituído por diversas salas, de acordo com as idades, onde as crianças podem ler, ouvir ler, ouvir contar histórias, jogar com objectos e palavras, estudar, ver vídeos, ouvir discos, ou requisitar material para casa. A partir das cinco da tarde, as salas da Fundação enchem-se do colorido de crianças de todas as idades, que por ali permanecem, sozinhas ou com os pais, até às oito horas. O Centro de Documentação propriamente dito tem um excelente arquivo sobre promoção da leitura, prestando a Fundação, além da divulgação de bibliografia na página da Net, um serviço de envio de informação por e-mail a quem o solicitar. Já no pólo de Madrid, o serviço de orientação à leitura on-line tem uma equipa que actualiza quinzenalmente esse SOL, indicando novidades editoriais, numa página magnífica. Vem sendo habitual nos colóquios e congressos o não encontro de soluções imediatas para os problemas levantados. As conclusões são o apanhado das próprias questões formuladas. Foi isso que aconteceu na conferência de Mainz. As questões mais pertinentes indicam o caminho a seguir: a conjugação de todos os organismos e entidades num Plano Nacional de Leitura, plano esse que possa funcionar através de uma rede nacional de promotores de leitura, onde se incluam bibliotecas municipais e escolares. A articulação entre Ministério da Cultura e Ministério da Educação é a chave desse plano. A formação de mediadores que ponham o plano em funcionamento será essencial para um bom resultado. Como tem funcionado essa articulação em Portugal? Na altura, o então Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, organismo do Ministério da Cultura responsável pelo sector do Livro, concebeu um novo programa de Itinerâncias Culturais em 2004, que pretende dar um novo contributo para uma política de criação de novos públicos leitores. Esta política substantiva-se no privilégio de acções dirigidas directamente ao público infanto-juvenil e de acções dirigidas aos mediadores da leitura que, quotidianamente, estão em contacto com este público-alvo. Consciente da escassez de formadores na área das técnicas de indução à leitura, o então IPLB promoveu acções de formação nesta área, que correspondem às necessidades estratégicas do terreno. Ao enviar o conjunto das acções, pediu-se que a biblioteca tivesse em vista um objectivo e que escolhesse as acções que melhor contribuíssem para o seu êxito. Ou seja, pede-se que cada biblioteca analise a priori o público-leitor potencial, articulando-o com o universo estudantil da região. O IPLB propôs, assim, ao bibliotecário que apostasse também nessa formação de formadores, para que uma verdadeira teia possa vir a ser criada entre biblioteca, escola e família. Da articulação das várias teias espalhadas por todo o país poderemos vir a pensar, no futuro, numa verdadeira rede de promotores da leitura: bibliotecários, animadores de bibliotecas, professores, pais, pessoas que recebam o testemunho e estejam aptos a transmiti-lo. Considerando que a comunidade escolar desempenha aqui um papel fundamental, conjuntamente com os bibliotecários e técnicos de bibliotecas, pela primeira vez — e de um modo articulado — o IPLB colaborou com a Rede de Bibliotecas Escolares, visando a implementação de projectos de animação continuada à leitura que se afastem da leitura escolarizada para que possam surgir verdadeiros leitores para o futuro. Esses projectos, ainda em número restrito (Matosinhos, Seixal, Mangualde/Viseu/Nelas e Beja/Mértola/Castro Verde), serão progressivamente alargados a mais pólos concelhios, de forma a tornar a tal rede de promotores da leitura mais sólida, mais incisiva e mais estruturada. Maria Carlos Loureiro - 2004

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